Chegamos ao ano 4
Por quanto tempo devemos insistir em um projeto? Perceba que não estou perguntando sobre seguir um sonho ou me agarrar a uma ideia. Minha pergunta é clara e precisa: quando elaboramos um projeto que se mostra exequível e bem fundamentado, devemos permanecer nele até que se realize? Esta é a pergunta que me acompanha desde a fundação do jornal poesi(A).
Sei que o início foi pura dedicação à poesia e à escrita de mulheres e, sim, errei muito nesse caminho. Também sei que errar faz parte do aprendizado e das experiências que nos constituem. De lá pra cá, fui me especializando nas várias facetas que envolvem uma publicação periódica, e uma coisa ficou clara: nem toda leitora ou leitor é entusiasta do impresso como eu. Esse entusiasmo pertence ao repertório das leitoras e leitores analógicos, que tratam seus livros como as relíquias que são. E sei que quem coleciona o jornal poesi(A) desde o nº 1 guarda cada exemplar com muito carinho. Mas a poesia também precisa ocupar outros espaços e formatos. É por essa razão que abrimos hoje o portal do jornal poesi(A).
Sim, portal! Eu explico: estamos inaugurando um portal de literatura escrita por mulheres. Ele terá publicações periódicas e outras fora do cronograma, pois nunca sabemos quando receberemos algo urgente para publicar. Isso significa que teremos uma chamada aberta e contínua, na aba “Chamada”. Receberemos textos autorais, traduções e também originais de livros (estes serão encaminhados para a curadoria do nosso selo editorial, a Folha Editora). A edição que você está lendo hoje é o Caderno 1. Aos poucos, nosso portal estará repleto de mulheres incríveis e de suas poéticas.
Por ser um portal, poderemos abusar dos formatos, e por isso todas as mulheres e suas artes são bem-vindas, assim como indicações e opiniões. Tudo o que você vir, gostando ou não, deixe seu comentário na página. Isso nos motiva a continuar buscando publicações, lançamentos e obras novas.
Particularmente, acredito que estamos criando aqui uma grande comunidade da literatura de mulheres. Nossa constituição de negócio e nossa visão de mundo são colaborativas. Mas é importante lembrar que defendemos alguns valores, e esta casa tem princípios. Por isso, nunca esqueça: aqui mulher tem voz; apoiamos toda iniciativa coletiva de empoderamento das mulheres; temos uma visão crítica e de esquerda, pois sabemos que quem segura a onda, dia após dia, são as pessoas trabalhadoras, e por isso queremos o fim da escala 6×1. Também defendemos o planeta e, nesse sentido, somos ecofeministas. Não há espaço aqui para a disputa de quem sabe mais, e em nenhuma hipótese aceitaremos posturas agressivas em nossa casa. E, acima de tudo, acreditamos no tempo como conselheiro.
Por entender que podemos criar outra forma de viver, mais amorosa e colaborativa, o jornal impresso voltará a circular em 2027. É preciso ter vida fora das telas também. O portal não é uma derrota em nossa construção: é ele que sustenta tudo, e é a maneira mais rápida de levar o que acreditamos a muito mais pessoas. Por essa razão, é tão importante indicar o poesi(A) a quem gosta de ler e, se puder, assinar o portal. Cada assinatura faz o próximo caderno existir e nos aproxima da volta do impresso.
O que peço a quem está chegando hoje, ou a quem já conhece o poesi(A) há mais tempo: olhe tudo com olhos de novidade. Estamos começando a construir uma casa cheia de amor e literatura. Não vamos parar. Os cadernos sairão todos os meses e, durante o mês do caderno vigente, publicaremos ainda novas seções.
Voltando à pergunta inicial: por quanto tempo devemos insistir em um projeto? Ainda não tenho essa resposta. O que posso dizer é que ainda não chegou o dia de parar. Digo isso não por mim, mas pela certeza que tenho do trabalho esmerado de todas as pessoas que estiveram e estão envolvidas no fazer diário do poesi(A) e, mais ainda, pelo apoio que recebemos das leitoras, assinantes e apoiadoras do jornal.
O que posso garantir é que, a partir do Caderno 1, vem muita novidade por aí.
Um abraço carinhoso às amigas leitoras de longa data e às novas que vamos conhecer agora. Iniciamos o ano 4 com alegria e amor.
Boa leitura.
Flavia Renata Quintanilha é pesquisadora em Filosofia e pós-doutoranda no IFCH/Unicamp. Investiga a racionalidade poética, a metafísica do silêncio e as condições de emergência do sentido, em diálogo sobretudo com María Zambrano e Victoria Welby. Seus interesses atravessam ainda linguagem, imaginação, significação e tradução filosófica. É autora de O silêncio do dia (2025), Sobre folhas e vento (2022), Desabotoar (2020), A mulher que contou a minha história (2018) e Aporias da Justiça (2015).
As fotos que ilustram esta edição são de autoria de Mia Lecomte