Assionara Souza

Assionara Souza em Poucas Palavras

A poesia de Assionara Souza desabrochou pouco tempo antes de sua partida. E causou certo reboliço, mesmo para quem já conhecia a veia poética mal disfarçada em sua escrita de ficção.

Nela, há um exercício intencional de estilos variados. Ainda que possa enganar. Algo que jorra como um fluxo de consciência ordenado, causados pelo lirismo + sátira, romantismo + drama, realismo + lirismo. Além do olhar que contempla compassivo as coisas pequenas do cotidiano. Descobre segredos, desenganos e apenas sugere reflexões. Sem culpa ou recriminação.

Com leveza e bom humor, Assionara utilizou-se do escárnio e ironia para criar uma linguagem original, em que privilegiou a própria palavra poética. Usou & abusou de técnicas de corte e colagem — como no cinema —, de modo a unir imagens e criar uma riqueza rítmica e narrativa nos seus poemas.

“O tema recorrente da minha escrita é a palavra”, ela dizia.

Versos fortes que abrem janelas & jaulas. Poemas indignados com a violência de gênero (“Quero a revolução das bichas/ Com sua força estridente/ Pra cima dos pelotões e dos crentes”), com a corrupção (“A grande autoridade saiu do casulo de sua ignorância/ Soltou um grande bocejo/ E finalmente opinou sobre questões superiores”) e todas as formas de opressão.

Poesia encantada & de encantar.

Quanta saudade, Nara.

Silvana Guimarães

Assionara Souza

Tarot

Vou confessar, querida

Tenho isso de gostar dos loucos

Observo de longe o jeito que eles comem com os olhos

Com você foi assim

Esse esmalte vermelho sempre em dia

Esse passado colado no álbum com cantoneiras e papel vegetal

Quero a receita completa

Desde o suspense antes do desfecho da trama

O disparo, teu olho assustado pra câmera

Por trás da palavra pêssego corre um rio espesso

Mordo a palavra pêssego

E as comportas desabam — uma cidade inteira vem abaixo

Corremos, corremos para bem longe do set de filmagens

Vida real é um cão dormindo no silêncio da tarde de um domingo

Curitiba, esta ilha carnívora

Engole as pessoas

Masca por anos a fio

E regurgita o corpo

Insone, atordoado e tonto

Próximo a alguma linha de ônibus

Aqui há muitas, aos tubos

Cápsulas de espera

Pessoinhas agarradas a cell phones

Digitam, enérgicas, mensagens

Como papéis lançados ao vento

Se flutuassem, luminosas e frias

Lotariam os céus de carências

“A ceia vai ser na mãe ou na tia?”

“Ele não gosta de ti, fia. Larga mão”

“Foto do meu pequeno. Niver de três anos”

“Te amo!”

“Dscp não era pra vc!”

Curitiba, gorda e embebida em laquê

O pés estouram nas sandálias

E os peidos embaixo dos panos

Esquentam por um momento as

Coxas brancas, orgulho fascista

Curitiba abriga vampiros longevos

Reticentes a flashes fotográficos

E conversa fiada dos repórteres literários

Capitalizaram as mais nobres causas

Pobre é a moeda corrente de sempre

Mas o poeta, o poeta anda enfermo

Delirante, largando versos pelos ares

O poeta quer se matar, mas tem um medo louco de altura

E inclina-se um pouco mais pra ver as cinzas caírem

A brisa desfaz os tufos moles antes que cheguem ao chão

O poeta é ingênuo e sofre uma dor egoísta

Quer sair de Curitiba. Curitiba não deixa

Curitiba o embriaga com suas doses de Dreyer

E as droguinhas que os moleques vendem na Trajano Reis

É preciso estar sóbrio e ter dinheiro no banco

Pra fugir do lirismo que entorpece

Mas a polaquinha sorriu

Capaz que ela aceite o programa

O batom vermelhoso e os cílios em riste

Dessas moças com um pau entre as coxas

O poeta segue abraçado trançando as pernas em dança

Descendo pela São Francisco

Até os sobrados sujos da Amintas

Onde as putas passam suas tardes

É dezembro, a noite está quente

O poeta medita sobre o ano que passou,

Sobre a vida que passou

A travesti sorri

Curitiba, sua linda! Vem! Me beija…


Ópera anônima

O domingo, essa criança entediada

Sozinha no pátio quando todos já se foram

Um casal de namorados na praça da matriz

Espera o penúltimo ônibus

Asas farfalham ao tinir do sino

O travesti desfere palavras firmes contra

O mofo de tristeza acumulado nas horas

Uma prostituta decide que o próximo será o último

Na moldura luminosa do oitavo andar

Duas mãos desistem da fuga infantil

E algemam-se a um maço de folhas

Nas quais os olhos desmaiam

Demônios procrastinadores

Sobejam uma culpa terrível

O domingo persiste em esmolar palavras

Nunca decifrar sua mímica ansiosa

Esconder-se entre versos simbolistas

Hoje não houve lua nessa cidade sem mar

Correr de mão pelos livros na estante

A tipologia sem corpo fustiga o peito

Com uma solidão faminta

E o domingo põe-se a arrastar

Fotografias em álbuns fantasiosos

Sugere o telefonema, mais uma vez adiado

Chafurdam vãs parvoíces nas telas eletrônicas

Recitam em pensamento o verso nu do koan

Enfim, branco, tonto e triste,

Do jeito que veio ao mundo

Arrasta-se para o quarto convencido de ter

Feito o melhor que merecia

Uma saudade sem braços

Sufoca os últimos insones

Até que drágeas certeiras

Deslizem garganta abaixo

No silêncio pastoso que escorre

De algum subúrbio

Duas marmitas sobre a mesa

Resistem e permanecem

Como se o novo dia se fabricasse

A partir dos escombros da véspera


Recado

Preciso que você veja

Entre as coisas esquecidas

A louça suja na pia

O mofo pousando cruel na doçura das frutas

Observe, por favor, se não deixei

Naquele canto do quarto

Por onde os insetos entram

Na ferrugem do ferrolho da janela da cozinha

Essa que sempre te acorda

Quando eu insisto em abrir

Assim que o sol se ajeita melhor no céu

Procure na caixa de areia dos gatos

Entre os pelos dos bichanos

Onde correm as pulgas que não matei

No desgaste da bicicleta largada no jardim

Talvez no banco de trás do carro

Que estraga estraga e você conserta

Olhe também embaixo das espreguiçadeiras

Na água amarga do jarro de flores

Que você sempre se esquece de trocar

Na ansiedade que antecede a raiva,

Quando a moça do telemarketing

Não atende, não atende, não atende

Sua solicitação

Entre os livros da estante, tantos não lidos —

Em eterno estado de espera e culpa burguesa

Nas mil declarações de amor que lhe chegam in box

Vigie se por ali, no cheiro do café

No pão cortado, os farelos sobre a mesa

No silêncio entre as notas de sua música preferida

Dá uma olhada se não larguei por esses cantos

Os sete pedaços do meu coração

Penso em ti

Com o impulso do susto

De quem ouve — entre silêncios

Estrondo de vidros quebrando

Não sei de que substância

[E qual peso]

Consiste a imagem

Dessa súbita falta tua

Por baixo de minha pele

Na película gelatinosa dos olhos

A forma duplicada entre o que vejo

E o que desejo ver

Sei que carrega a eletricidade

Da primeira palavra pronunciada

E imediatamente compreendida

Guerras íntimas vencidas

Esferas do acaso coincidindo

Um corpo diante do outro

E o sopro de um breve destino

Marcado de riso e medo

Tons etílicos de sílabas sibilam

Saber-se suficientes meus olhos moventes

No labirinto dos teus

A mulher de Lot

Um passo atrás

Enquanto a cidade desaba

Todos correndo

Um tumulto dos diabos

O filho, a filha, o marido

A vizinha da frente — com quem o infeliz tem fornicado

Há mais de cinco anos embaixo de seu nariz

Como se ela não soubesse

Como se ela não tivesse visto de tudo nessa vida

Ele perguntando se a camisa vermelha

— Aquela com um só bolso no lado direito?

— Sim. Essa mesma.

Se a camisa vermelha não estava limpa e bem passada

E o filho indo no mesmo caminho

Tratando-a feito lixo

— A mãe não sabe pronunciar a palavra “estultícia”. Tenta, mãe!

Estúpidos todos

Até a filha, que ela tanto ensinou

Agora andava com um centurião

Um centurião!

Maior desgosto para uma mãe

E depois dessa correria toda

Quando arrumassem pouso

Adivinhem quem prepararia o jantar?

Não teve a menor dúvida

Mirou a cidade em chamas

Uma sensação incrível

Deixar de ser uma mulher de pedra

Seu corpo inteiro puro sal rebrilhando ao sol

Automat, 1927

No céu de Hopper

É sempre outono mítico

O tempo descansa longe das câmeras

As palavras flanam em silêncio

E mancham o espaço de uma luz vaporosa

Uma moça toma um café

Nenhuma bebida na xícara a não ser café

Nenhuma xícara sobre a mesa

A não ser aquela xícara sobre a mesa

No hall do mesmo hotel

Pensado por Platão

De onde todos os simulacros derivam

Ondas de solidão vibram em círculos concêntricos

Os gestos antecedem qualquer pensamento

Enquanto fora do quadro e no coração do artista

Urge o distúrbio do mundo

Espelho meu

Estávamos na sala eu e minha mãe

[Agora é que percebo que ela manteve os cabelos longos

Somente até aquele dia]

Eu lia a história de Branca de Neve

Virando as páginas assim que as personagens do

Disquinho azul alcançavam a última linha

— Terminar de ouvir me antecipava a vontade de ouvir de novo

Mal sabia que alimentava naquele gesto

O pequeno monstro do desejo incontrolável

Minha mãe fazia acabamentos na bainha de uma saia xadrez

O carro parou na frente de casa com uma freada brusca

Olhamo-nos com a mudez sincera dos que sabem que

As cenas do próximo capítulo vêm para abalar o coração

Bateram palmas lá fora

Ela largou a costura

Eu desliguei o disquinho

E toda a paz de nossas tardes

Foi varrida pelo vendaval da notícia que o homem trouxe

Sempre que ouço a história de Branca de Neve

Esbarro naquele ponto em que o caçador

Arranca o coração de um cervo

Silvana Guimarães nasceu em Belo Horizonte/MG, onde vive. Escritora, é formada em Ciências Sociais pela UFMG. Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do coletivo Escritoras Suicidas. Revisou e organizou incontáveis livros de poesia alheios. Participou de várias antologias poéticas nacionais e estrangeiras. O corpo inútil, no prelo, é o seu primeiro livro de poesia.

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