Karen Kazue Kawana

No turno da noite

Josué, Éder, Reginaldo,

nomes que invento

por falta de memória,

por corrosão do tempo.

Rapazes vindos do norte

para trabalhar no sudeste

seguindo pegadas invisíveis,

chamando uns aos outros.

Eles viviam no restaurante,

dormiam num quarto nos fundos

que exalava o cheiro acre

do suor da hora do almoço,

do corre do turno da noite.

Eles gritavam na cozinha,

às vezes havia brigas bestas

por mau humor, falas atravessadas,

ou brincadeiras de mau gosto.

Eu atendia ao telefone,

recebia pedidos no balcão.

Eles conversavam comigo

nas horas mortas,

me davam comida escondido

à guisa de flerte tímido:

uma banana caramelada,

um pedaço de frango frito.

Saíam todos perfumados em suas folgas.

Sem uniforme, pareciam outras pessoas.

Perguntava para onde iam,

e a resposta era sempre vaga.

Mencionavam garotas desconhecidas,

forrós na periferia da cidade.

Eu pegava o ônibus das onze,

e eles não tinham voltado.

Talvez chegassem na claridade,

ainda com a dança nos pés

e os contornos de uma mulher

na memória de seu tato.

***

Diálogo lunar

A lua me fazia companhia

enquanto caminhava pela rua

na volta do trabalho na rede de fast-food.

O bairro quase adormecido,

as casas esparsas, já com luzes apagadas

e os terrenos baldios, cobertos de mato,

até me pareciam bonitos.

Tinham um quê de pintura impressionista

a meus olhos cansados.

Lá no futuro, há dias melhores.

Ela me consolava.

Ah, mas eu quero tudo agora,

do futuro ninguém sabe!

Eu insistia.

Ele está no próximo minuto, chega todos os dias.

Ela retrucava.

Eu entendia, mas não acreditava.

***

Poemas publicados na coletânea Eu acendi o fósforo (Ofícios terrestres, 2025)


Karen Kazue Kawana é pesquisadora e tradutora de literatura japonesa. Tem traduções publicadas dos escritores Osamu Dazai, Yuriko Miyamoto, Toshiko Tamura, Kiyoko Murata, entre outros. É doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas e mestra em Língua, Literatura e Cultura Japonesa pela Universidade de São Paulo. Doutora e mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. É autora dos livros Eu acendi o fósforo (Ofícios Terrestres, 2025), Cancioneiro da desilusão (Urutau, 2022), entre outros.

As fotos que ilustram esta edição são de autoria de Mia Lecomte

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