Mia Leconte e a poesia como lugar de travessia
Poeta, ensaísta e tradutora italiana, Mia Lecomte construiu uma obra marcada pelo deslocamento, pelo multilinguismo e pela reflexão sobre identidade, pertencimento e escrita. Nesta conversa, Mia fala sobre sua trajetória, a experiência entrelínguas e o lugar da poesia no mundo contemporâneo.
1. O Deslocamento como Matéria
Sua trajetória literária é profundamente atravessada pela experiência entre línguas e culturas. Em que momento você percebeu que o deslocamento deixaria de ser apenas uma experiência biográfica para se tornar, efetivamente, a sua principal matéria poética?
Comecei a escrever ainda muito pequena, nos primeiros anos do ensino fundamental. Eram continhos ou poesinhas, estas últimas muitas vezes rimadas, que eu ilustrava. Fazia isso no escritório do meu pai, um poeta francês que se dedicava a trabalhar em seus textos. Enquanto escrevia ou desenhava — deitada no chão ou no sofá —, falava sozinha, cantarolava e, às vezes, era gentilmente silenciada. Passava muitas horas assim, diariamente. E isso ainda acontecia na casa onde nasci, em Milão, antes de deixar a Itália. Alguns anos mais tarde, na Suíça, os cômodos haviam mudado, mas o ritual era o mesmo, enriquecido pela prática da tradução: meu pai, naquela fase da minha educação secundária, passava a me pedir para ajudá-lo a traduzir para o italiano, e essa transição diária e multilíngue de palavras continuou até a sua morte. Paradoxalmente, portanto, a forte marca do meu percurso literário, caracterizado pela experiência transcultural e translinguística, não nasce da mudança, do desenraizamento, mas do que vivia e sobrevivia dentro do habitar de certos quartos, da intimidade e do amor que nos acompanhavam na concha mágica que carregávamos nos ombros ao longo das mudanças.
2. A Dialética do Pertencimento
Muitos dos seus poemas parecem habitar um espaço de suspensão — entre memória, identidade, território e linguagem. Como dialogam, no seu fazer poético, a busca de um pertencimento e a fricção com a consciência da não pertença?
É exatamente isso que estou dizendo. Naquele espaço afetivo, artístico e criativo — repleto de tolerância e cumplicidade, que depois tentei recriar também com meus filhos, em quartos de outras cidades, com outras línguas em jogo — desenrolava-se um ritual atemporal, com sua própria linguagem, seu próprio território, no qual a memória era memória em si mesma. O único habitat em que ainda hoje me parece poder sobreviver “inteira”, preservando uma espécie de integridade pessoal. E a escrita, a poesia, que nesse espaço nasceram, encontraram uma razão profunda para existir; com o tempo, tornaram-se a única possibilidade de voltar para lá. As palavras mágicas que me permitem colocar o mundo em pausa e passar para entrar nesse ‘poético alhures’.
3. Literatura Transnacional
Sua produção frequentemente dialoga com a ideia de literatura transnacional. O que a escrita “entrelínguas” revela sobre o mundo contemporâneo que as literaturas nacionais, sozinhas, talvez não consigam mais alcançar?
Quem fala aqui é a estudiosa em que, com o tempo, partindo das mesmas premissas, me tornei. A migração não é um fenômeno secundário. A mesma história da humanidade é marcada pelo movimento de populações, apesar da visão distorcida que a propaganda nacionalista tentou e continua tentando nos impor. Sabemos que o número da população mundial atualmente “em marcha” está sempre a crescer. E essa marcha traz à tona conceitos fundamentais para a compreensão real da nova realidade que continuamos a chamar de “mundo”. O que distingue a escrita migrante, transnacional, é uma identidade múltipla — que não implica alternativas, mas combinações em acumulação — da qual ela é composta, a estratificação de destinos e projetos futuros que guiam sua voz. Uma fórmula sempre diferente que faz com que, a cada momento, ela seja outra, estranha a si mesma, em uma renovação contínua de sua própria essência volátil. Os escritores transnacionais são individualidades bem distintas, cada uma expressão de uma composição alquímica única e irrepetível, resultado de uma aventura biológica e cultural pessoal e composta, que na diferença une histórias e destinos. A causa e o efeito, juntos, de uma desterritorialização interior e exterior ao mesmo tempo, extraordinariamente fértil.
4. O Olhar Fotográfico
A fotografia também ocupa um lugar importante em seu percurso artístico. Como você percebe a relação entre fotografia e poesia dentro do seu processo criativo?
Como eu dizia no início, desde pequena eu adorava ilustrar minhas histórias e rimas com desenhos. Minha abordagem às palavras sempre foi visual, e a função desempenhada pela cor é fundamental. E logo comecei também a fotografar. Ganharam-me uma câmera que eu levava sempre comigo e muitas das lembranças das viagens em família que hoje estão nos álbuns são constituídas por essas minhas primeiras fotos: o enquadramento de baixo para cima, deslocado. E assim continuou o diálogo poético interior entre o silêncio das palavras e o das imagens: descentrado, estranho, em busca de uma proporção inatingível…
5. A Gênese da Imagem
Em seus textos, existe uma convivência muito delicada entre silêncio, ausência e imagem. Como nasce a imagem poética no seu processo de escrita? Ela surge antes da palavra ou é a própria linguagem que, ao ser tateada, cria a imagem?
A imagem acima de tudo. Um detalhe, um reflexo de luz, uma silhueta á margem, seu gesto. Uma poética de formas silenciosas, objetos e corpos. Discretos, mas que, justamente por isso, dominam a cena e exigem palavras para serem dita.
6. A Poética da Infância
Ao escrever para crianças, você preserva uma dimensão poética muito forte, sem simplificar a linguagem. Você acredita que a infância possui uma relação mais aberta com a poesia do que a vida adulta?
Acredito que a infância seja, em si mesma, pura poesia. Minha escrita para crianças é, curiosamente, a mais “engajada”, onde a denúncia é mais explícita. Mas não são textos educativos, didáticos, longe disso. Adoro a companhia das crianças; é, sem dúvida, a que mais prefiro, junto com a dos animais, mas é uma relação de igual para igual, sem hierarquias geracionais. É como falar com a parte mais verdadeira de mim, que ainda consegue sentir todo o peso, a gravidade, e até mesmo o ridículo, do que os “adultos” têm a coragem descarada de acreditar e de fazer. Podemos dizer isso abertamente, e brincando, porque só as crianças sabem o quão poeticamente sério é o jogo…
7. Pontes Culturais: O Português e o Italiano
Como tradutora, você construiu pontes fundamentais entre o português e o italiano. O que mais a desafia ao tentar verter a musicalidade e a plasticidade da poesia brasileira para a língua italiana?
Não me considero uma tradutora do português; as poucas traduções poéticas que fiz sempre contaram com a colaboração de uma mãe-lingua, que me ajudou a penetrar na essência, no âmago do que eu precisava transmitir para outro idioma. Mas amo a língua portuguesa tanto quanto a italiana, um amor que tem raízes no passado e no amor pela música brasileira, que tem sido a trilha sonora da minha vida. A minha relação com o português do Brasil é, portanto, uma relação “musical” no sentido mais amplo do termo, que envolve também a grande alma popular da língua, que alimentou sua extraordinária poesia.
8. Marina Colasanti
Você realizou um trabalho de tradução e reflexão sobre a obra de Marina Colasanti, outra autora marcada por múltiplas travessias culturais e linguísticas. Existe algo na arquitetura da linguagem dela que resiste especialmente à tradução?
Minha reflexão sobre Marina Colasanti, desenvolvida durante o pós-doutorado que realizei há três anos na Unesp de Assis, centra-se justamente na definição de seu perfil literário como autora transnacional. A “italianidade” de Marina impregna profundamente sua produção poética – tanto que em cada uma de suas coletâneas há alguns textos escritos diretamente em italiano. A poesia é justamente o espaço sagrado onde essa alma impregnada da língua materna se manifesta. “A língua em que permaneço em silêncio”, assim Marina definia o italiano. O que equivale a dizer: é o respiro da minha interioridade poética.
9. O Espelho da Tradução
Parte da sua obra vem sendo traduzida para o português. Como é, para você, ver seus próprios textos atravessarem uma língua que você também habita? Ver-se traduzida altera a forma como você enxerga o próprio texto original?
Submeter os próprios textos ao crivo da tradução é fundamental para compreender sua consistência literária. É claro que existem línguas mais compatíveis, nas quais a transposição parece mais “natural”, mas, na verdade, os pontos problemáticos de um texto permanecem mesmo em qualquer língua para a qual ele seja traduzido. No que diz respeito às línguas que falo ou, pelo menos, compreendo – francês, inglês, português e espanhol –, faço questão de colaborar com os tradutores, acompanhando-os sem, no entanto, forçar ou impor escolhas textuais ou soluções tradutivas. Mas, às vezes, tento aprimorar a escuta também de línguas que não conheço, procurando avaliar pelo menos o resultado musical da leitura em voz alta. Para a poesia, a relação entre as línguas é ainda mais complexa, diria até misteriosa. A experiência com coletivos poéticos multilíngues me ensinou que, além das línguas que se colocam em contato, em confronto, há um núcleo intacto, incandescente, que passa de uma para a outra e que permite uma comunicação profunda além da compreensão linguística real. Para os poetas envolvidos, para o eventual público que assiste a essa espécie de “milagre da polilalia”, parece que a língua utilizada é uma só, capaz de atravessar e unificar todas as outras.
10. A Tradução como Ética
Em seus projetos coletivos com poetisas e escritoras de diferentes origens, nota-se também uma dimensão política do encontro. Você acredita que a tradução pode funcionar como uma forma de escuta ética do outro?
O coletivo é, de fato, o principal elemento de identificação desta oficina literária e poética. Mas trata-se de uma dimensão coletiva concebida num sentido novo, apolítico, como a superação do mesmo coletivo, concretizada num grupo, ou seja, em que as individualidades que o compõem são garantidas e promovidas justamente por sua relação individual com o todo. Um coletivismo que é o primeiro e mais evidente resultado da fragmentação identitária que está na origem da poética das autoras transnacionais com quem colaboro, cujas identidades em trânsito, em constante atualização, permitem uma relação flexível e dinâmica entre todos os elementos em jogo na construção dos projetos. Isso tem, evidentemente, uma influência importante também na relação que se cria entre as diversas escritas; os respectivos textos, postos à prova justamente por essa nova fórmula de compartilhamento, submetidos ao “reagente” do coletivo, relacionam-se entre si em um diálogo aberto, que flui sem obstáculos além das línguas. O fato de essa nova ideia de coletividade ter sido concebida inteiramente por mulheres contribui para defini-la como uma espécie de família, uma comunidade “materna” dedicada ao cuidado da nova produção literária, poética e de suas línguas des-matrizadas. Portanto, acredito que o discurso vai além da prática tradutora entendida de forma genérica, em uma direção “política” diferente, onde a escuta ética é justamente o que permite que as vozes se encontrem além, para além das línguas da expressão literária.
11. Vozes Femininas em Coro
O que esses encontros entre mulheres poetas de diferentes geografias produzem hoje, tanto literariamente quanto humanamente?
Armando Gnisci – iluminado e visionário professor da Universidade La Sapienza de Roma, especialista em literatura comparada e um dos pioneiros na Itália no estudo das literaturas transnacionais de língua italiana –, falecido há alguns anos, gostava de definir o coletivo poético internacional feminino Compagnia delle poete, por mim fundado em 2009, como “o lugar móvel da fraternidade e da concórdia”. Acredito que essa definição diz tudo.
12. A Perseguição do Dizer
Há algo que você sente que ainda não conseguiu dizer plenamente em sua escrita — algo que continua retornando e exigindo novas formas de linguagem?
Minha escrita, em todas as suas manifestações, nasceu justamente da impossibilidade ordinária e cotidiana de dizer. Foi e continua sendo uma tentativa de alcançar os outros — e, portanto, também a mim mesma — além das simples possibilidades comunicativas das palavras, que, sem a transposição literária e artística, sem seu poder imaginativo, sempre me pareceram pobres, tímidas, inúteis. Trata-se de reajustar a música do (meu) mundo para que ela possa finalmente ressoar, revelar-se em seu significado, em seu sentimento mais profundo e completo. Uma prática destinada a um fracasso contínuo e certo, que, por isso mesmo, alimenta a tensão criativa.
13. O Invariável
Quando você olha hoje para sua trajetória entre poesia, tradução, infância e travessias culturais, o que sente que permaneceu essencial desde o início do seu percurso?
Invariável e imutável é justamente a insatisfação que acompanha essa busca sem esperança. Mas que talvez seja a única possibilidade criativa concedida a nós, seres humanos: o exercício infinito de aproximação de seres finitos, a tensão absoluta que alimenta e, por isso, justifica a contingência.
As fotos que ilustram esta edição são de autoria de Mia Lecomte







foto de Marianne Boutourline
Mia Lecomte (1966) é uma poeta e escritora italiana de origem francesa que vive na Suíça. Tradutora de francês, é especialmente conhecida como crítica e editora no domínio da literatura transnacional, em particular da poesia. É fundadora e membro do grupo de teatro poético Compagnia delle poete e da Agência Literária Transnacional Linguafranca. A sua poesia foi traduzida em várias línguas e publicada em revistas, antologias e volumes monográficos, entre os quais a plaquete em português Desabitável (Juiz de Fora, Macondo, 2024.Trad. Cláudia Alves), da qual estão tratadas estas poesias. Há anos que combina a poesia com a fotografia
(www.mialecomte-ph.com).
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