Um pouco sã, um pouco salva
Abandono afetivo e material foi o que recebi como herança paterna. Aos 11 anos, por exigência jurídica, fui comunicada que um sobrenome alteraria meu nome cuja origem vinha de um genitor que reconhecia tardiamente que anos de namoro tinham como saldo uma gestação indesejada e que a filha, já pré-adolescente, herdara um mesmo jeito nervoso de sorrir, quase como um carimbo inconfundível de reconhecimento de paternidade estampado.
Cresci em um matriarcado acidental, no qual as mulheres da família não estavam dispostas a assumir uma posição central, mas que a culpa cristã e a força das circunstâncias demandaram um posicionamento que elas não se furtaram de dar, caso contrário eu não estaria aqui para contar esta história. Minha avó, aposentada por invalidez, mãe solo e semianalfabeta, sofria de grandes angústias pela potencial família burguesa de classe média frustrada com a filha noiva abandonada literalmente grávida no altar, e fumava escondida no banheiro dos fundos da casa; para ela, havia sempre a sombra de uma falta que eu, felizmente, ignorava a explicação durante toda infância. Minha mãe, por sua vez, criava um jogo do contente que me provocava uma sensação sufocante de não ter para quem falar sobre a errônea associação do meu rosto lembrar a feição de uma pessoa que me desprezava, o que me parecia quase um fato maldito, mas que se tornava mais crítico próximo de datas como segundo domingo de agosto de cada ano. Eu sentia que minha família estava completa estando apenas com as minhas duas matriarcas, então, para mim, não faltava mais ninguém, mas eu sabia que existia um sofrimento intrínseco não verbalizado.
Embora este genitor tenha me legado um sobrenome, tal fato jamais se converteu em nada a não ser uma informação burocrática na minha certidão de identidade. Ao me tornar minimamente consciente desta condição, insatisfeita com a ausência que me fora imposta, tentei criar minha própria noção do que seria a paternidade. Não ter uma figura concreta me impeliu a buscá-la em um nível simbólico, em referências que me mostrassem quem eram os homens, já que eu não os conhecia salvo por representações televisivas. Comecei uma busca no terreno da fé e tentei me apropriar das atividades culturais disponíveis naquela comunidade, usando pela primeira vez o vocativo “pai” ao me dirigir a um ser superior que seria supostamente responsável por guiar meus caminhos. Como é possível de se imaginar, tive dificuldades para me vincular com a exigência de me dirigir a uma entidade masculina sem rosto (porque talvez isso reforçasse minha vivência) ou a santos que não me respondiam de forma direta, então, junto com um certo asco já adquirido, abandonei aquele lugar sem olhar para trás. Na época, considerei que a habilidade de desprezar e abandonar vínculos estabelecidos talvez fosse parte de uma habilidade genética que eu tivesse herdado, o que, naquela conjuntura, não era de todo ruim.
Preenchi os vazios da experiência da rejeição paterna optando também por uma negação inegociável: tudo o que não me causasse genuína curiosidade em relação ao mundo dos homens, não me interessaria conhecer. Eu só ouviria e leria quem valesse a pena, pois não teria paciência para conhecer amenidades. Minha incursão religiosa deu lugar ao pensamento científico e à leitura literária intensa durante a adolescência; acho, inclusive, que foram eles que me mantiveram sã por algum tempo. José de Alencar, Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Balzac, Émile Zola e Gustave Flaubert me mostraram que poderiam existir subjetividades masculinas sensíveis e a generosidade de terem ficcionalizado esses universos me permitiram acionar realidades que eu sequer supunha existir. Carlos Drummond de Andrade e Belchior também me colocaram no colo muitas vezes, mas foi principalmente João Cabral de Melo Neto que desejei ser parente próximo e construí serões imaginários ao seu lado em varandas de casas de rurais pernambucanas.
Admitindo a premissa de pertencer às estatísticas da maioria da população brasileira de famílias chefiadas por mulheres, cheguei a uma hipótese que demandou décadas de terapia: talvez a ausência pudesse ser interpretada quase como um presente, pois paradoxalmente existiram as presenças – e elas sempre foram as das mulheres. Sem dúvidas foram elas que me sustentaram para estar até hoje um pouco sã e um pouco salva. De um jeito enviesado ou de outro, sempre houve alguém que me enxergava e que respondia que a minha existência era válida e que eu não devia pedir licença ou desculpas por ter nascido. Se o abandono afetivo e material foi o que recebi como herança paterna, aos quase 40 anos me vejo abandonando também um ceticismo que usei como escudo para me proteger da validação masculina que tentei em vão buscar. Ao me descobrir filha de duas mães – Yemanjá e Oyá –, encontrei certa explicação metafísica para parte de um mundo que eu resistia, mas que me vejo confrontando certezas e me abrindo cada vez mais para o desconhecido.
Acho que a lacuna que Freud diz ser feminina, sem dúvidas, é um dos maiores enganos do Ocidente: a incompletude da falta é uma condição que forja parâmetros profundos que são reais, vivos e pulsantes, motores de propulsão que podem criar paradigmas muito mais interessantes se vistos em suas completudes. Hoje penso que ter sido privada de contato com o patriarcado logo cedo pode ter me ajudado a preservar um forte senso de sobrevivência e uma certa incredulidade na misoginia como modus operandi, o que considero um privilégio bastante singular. Mas como explicar o óbvio se a anatomia completa do clitóris foi descoberta apenas no século XXI? Como argumentar se o mau-caratismo da paternidade seletiva ainda é uma prática amparada por falácias que parecem se repaginar com álibis cada vez mais anacrônicos? Talvez a gente deva praticar a habilidade de desprezar e abandonar resistências com ou sem rosto quase como uma revanche ou talvez como uma forma de reconhecimento que a lição dada foi aprendida. Gosto de pensar nesta habilidade como a imagem de uma carta estilo de Super Trunfo, com a capacidade de manter todas nós minimamente sãs e minimamente salvas durante o jogo. Gostaria que minha mãe e minha avó pudessem jogar algumas partidas dessas comigo.
Priscila Monteiro é professora no Ensino Superior público, pós-doutoranda em Literatura Brasileira com subsídio do CNPq na Universidade de São Paulo. Desde 2018, também é mãe de uma menina fenomenal.
As fotos que ilustram esta edição são de autoria de Mia Lecomte